Leia a entrevista da Revista ELE ELA, com Os Satyros
PERSEGUINDO A EMBRIAGUEZ
A COMPANHIA DE TEATRO OS SATYROS COMEMORA 20 ANOS À PROCURA DO DIONISÍACO
POR ANDRÉ MALERONKA
Para desenvolver seu teatro crítico, a companhia Os Satyros teve que encarar um autoexílio em Lisboa, travestis violentos, moradores de rua traficantes e o conservadorismo da crítica especializada, entre outros pés-de-breque. No meio dessa caminhada que acaba de completar 20 anos, eles conquistaram a Europa, montaram Sade com maestria, reacenderam a cena teatral de São Paulo, invadiram a televisão e conseguiram alterar a geografia da Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, com arte e diálogo.
Agora, Os Satyros comemoram os serviços prestados à comunidade teatral inaugurando até o final do ano a Escola da Praça, um prédio de 11 andares na mesma Roosevelt, escolhida como lar pelo coletivo, estreando uma minissérie na TV Cultura, filmando o longa Outono e lançando um livro de fotos com retrospectiva da carreira do grupo.
Ao passarmos a limpo essa história com os diretores Rodolfo Vázquez e Ivam Cabral, fundadores da companhia, descobrimos que duas entidades são constantes no discurso da dupla: “a gente”, quando se referem ao coletivo, e “a Praça”, a toca de Os Satyros. Confira, em primeira pessoa, como eles se completam e o que nos contaram.
O INÍCIO
IVAM A gente se conheceu em São Paulo fazendo uma peça juntos, e nesse momento idealizamos o Satyros. RODOLFO Era Qorpo Santo, contando sobre a vida desse dramaturgo gaúcho louco, do século 19, que escreveu umas farsas que não tinham pé nem cabeça, com personagens com nomes loucos. IVAM Naquele momento, em 1989, o panorama do teatro brasileiro era outro. Por exemplo, não tinha o Zé Celso. Ele tava meio... RODOLFO Em ostracismo. IVAM Ele veio retomar o trabalho dele, do jeito que a gente conhece hoje, no meio dos anos 90. Não tinha o Teatro da Vertigem, do Tom Araújo. [O teatro brasileiro] Era um teatro muito formal, de dois grandes diretores que mandavam nessa cena, que era o Antunes Filho e o Gerald Thomas. A gente se questionava, embora admirando e respeitando pra caramba o trabalho desses dois encenadores, do por que não produzir algo com características muito mais próximas do que sentíamos e pensávamos. Naquele momento a gente tava lendo A Origem da Tragédia, de Nietzsche, em que ele fala de dois elementos essenciais para a cultura, que são o apolíneo e o dionisíaco. O apolíneo é a forma, a luz. O dionisíaco a embriaguez. Então a gente começou a perseguir esse último elemento que faltava no teatro, o dionisíaco. O Satyros foi pautado em cima destas ideias: vamos ver onde está a embriaguez, onde está o sexo, onde estão as entranhas deste teatro. Daí, a gente produziu naquele momento A Filosofia na Alcova. A estreia foi um grande escândalo. RODOLFO Pra abrir a companhia, a gente precisou de um espaço. Na época os espetáculos mais “de pesquisa” usavam o Ruth Escobar – não tinha Sesc – e eles recusaram o nosso trabalho por considerarem pornográfico. Tentamos teatros pornô, que também recusaram a gente, dizendo que éramos intelectuais. A gente ficou no limbo. Então alugamos um teatro na rua Major Diogo [centrão da capital] e começamos um grande movimento lá. Ficamos dois anos ali e fizemos a Saló Salomé, a primeira Satyrianas [festival anual organizado por eles], que na época chamava Folias Teatrais. Disso a gente acabou se exilando do Brasil. IVAM A interlocução com o público que queria ver o nosso trabalhou rolou. Mas os críticos brasileiros daquele momento não entendiam o que a gente estava fazendo. Colecionamos umas críticas bem complicadas.
O EXÍLIO
IVAM A gente foi convidado para ir para a Europa no Festival do Porto [em Portugal], com possibilidade de ir para a Espanha também. Era a era Collor de Melo, um momento terrível do Brasil, a cultura renegada. Não existia nenhuma lei de incentivo, nada disso. Resolvemos ficar um tempo num exílio voluntário. RODOLFO Aí a gente ficou lá de 92 até o final de 99. Saímos do Brasil com 25 pessoas, algumas voltaram, outras ficaram. Começamos a dar cursos em Portugal. Muitos alunos nossos acabaram virando estrelas da televisão e do cinema portugueses. Em 95 ainda morávamos em Portugal, mas voltamos para Curitiba. O Ivam é de lá, e a gente começou a restabelecer os laços com o Brasil por Curitiba, que tinha uma lei de incentivo à cultura. Então, de 95 a 99 a gente ficou entre Curitiba e Lisboa, mas sempre com o desejo de voltar a São Paulo.
A PRAÇA
IVAM Nunca nos ocorreu Vila Madalena ou Jardins, só a zona central da cidade, quando pensávamos em voltar a São Paulo. Isso que aconteceu aqui [na Roosevelt], de jogar luz nesse lugar e modificar o entorno, já tinha acontecido pelo menos duas vezes na nossa história, na Major Diogo, e em Lisboa, num lugar chamado Chabregas, onde a gente estreou A Filosofia na Alcova, em 93. Eram locais escuros, distantes, complicados, e que em pouco tempo a gente trouxe gente, iluminou e tudo mudou. Isso não só por conta do nosso trabalho. A arte é muito poderosa, ela tem essa força. Apostamos nisso. 2003 é o momento em que as coisas viram, um ano muito importante para nós. Foi a primeira vez que o Rodolfo é indicado ao prêmio Shell, o prêmio mais importante de teatro em São Paulo, no Brasil talvez. RODOLFO Nossas salas estão lotadas direto. IVAM Os críticos começam a vir, a gente começa a ter um espaço que até então não tinha, que é na Folha de S.Paulo. Fomos ignorados nos primeiros anos. Tinha o [bar] Corsário aqui, nos anos 90, e uma padaria 24 horas onde hoje é o Parlapatões. E esses dois lugares fecharam por causa de chacina. Tinha dois apart hotéis de travestis e um bar de michê self service, [prostituição] gay, onde você pagava vintão e transava com quantos michês estivessem lá dentro. As travestis eram muito agressivas, brigavam com os moradores. E morreu um cara, quando a gente já estava aqui. Fomos convivendo com essas coisas e foi terrível, assustador, porque eu tinha vindo de Curitiba, passado por São Paulo e morado anos na Europa, tinha uma formação meio burguesinha, e começar a ver arma, ser ameaçado de morte, era tudo muito agressivo. IVAM A gente foi vivendo etapas. Num primeiro momento era dar cerveja para deixarem a gente trabalhar, eles estipulavam horário. Se tínhamos uma festa, a gente ia negociando. A Eletropaulo colocava luzes e eles quebravam tudo, anoitecia sem luz. Ficamos um ano negociando. Teve um momento de tentar humanizar, saber o nome dessas pessoas – coisa que ninguém se interessava em saber. A gente chegou a ficar amigo de vários deles e foi vencendo assim. O centro da cidade vivia um momento muito complicado, no imaginário do paulistano era uma coisa tenebrosa, aterradora. Quando chegamos aqui já tínhamos a ideia de trabalhar em vários horários, de segunda a segunda. O bacana disso é que esse formato ecoou no movimento teatral de São Paulo, muitos grupos surgiram. RODOLFO E tem a chegada da Fedra. A gente não tinha relação com as travestis, elas ignoravam a gente, e era muito pesado. O Marco, um aluno nosso, tinha virado travesti. Ela trabalhava na noite com prostituição, e nos apresentou a Fedra de Córdoba, uma travesti que nesse momento fazia shows em casas noturnas, e já tinha 60 e tantos anos de idade, mas que tinha sido atriz em teatro de revista. Ficamos amigos e ela fez o link com as travestis da Praça. Agora são os novos moradores que querem a paz da calçada que a gente trouxe, mas sem a gente, só que isso não existe. Essa paz só existe porque a gente está aqui. Ali é a Rego Freitas [indica], lugar de prostituição pesadíssima, ali é a Nestor Pestana, onde estão todas as boates de pegação, a Augusta é ali. Nós estamos no meio. Se não tiver esse movimento que foi criado, isso é engolido. Uma vez entrou um cara no Satyros Um [são dois teatros] e sentou numa mesa ao lado de uma de nossas produtoras, abriu a braguilha e começou a bater punheta ao lado dela. O cara não sacou que aqui não era a Rego Freitas, nem a Major, nem a Nestor, nem a Augusta. A gente teve que falar com ele, e ele foi embora. Mas esse tipo de coisa não aconteceu nem uma, nem duas vezes, foram várias. Sempre houve o risco de um desses espaços virar uma casa de prostituição.